Quintal dos Poetas
Oficina Literária

                                                                      editora independente
 

 

Sobre livros e autores


PAPÁ E SUAS LENDAS

Papá Hemingway não é uma biografia. É sobretudo uma longa reportagem de A.E. Hotchner sobre si mesmo, construída em cima da sua intimidade com as mitologias e dramas da vida do autor de O velho e o mar. Eis mais uma peça da edificação das lendas que o próprio Hemingway e seus amigos construíram em torno do glamour das vidas da “Geração Perdida”, tendo Paris como cenário de fundo do maravilhoso palco iluminado onde contavam ter vivido. Afinal, a cidade luz era uma festa naqueles tempos galantes. E ainda é, apesar das hordas de bárbaros do norte e do sul que invadem a cidade todos os meses do ano. Mas o final da vida de Hemingway foi dramático, Hotchner foi testemunha ocular disso e soube contar a história como uma boa reportagem.
Hotchner e Hemingway se conheceram em Cuba no final da década de quarenta e instantaneamente, não se sabe bem porque, se tornaram amigos íntimos. Tendo eu que buscar uma causa para tão súbita apegação diria que tinha sido pelos caminhos editoriais que Hotchner conhecia, coisa que, compreensivelmente teriam enchido os olhos de Hemingway, sempre carentes de fama e de grana. O fato, enfim, é que se tornaram íntimos e Papá Hemingway é, como dito, a grande reportagem dessa intimidade. Está tudo lá como devia estar: o que foi vivido, o que foi contado e o que, muito provavelmente, só foi imaginado. O escritor genial, beberrão, valente, charmoso, bon vivent, esportista, jogador audaz, excêntrico, irresponsável. A “Mitologia Hemingwayana” na sua forma mais expressiva. De qualquer forma, forçoso reconhecer que as aventuras de “Papá Hemingway” contadas por Hotchner, malgrado o exagero hollywoodiano, formam uma novela deveras interessantes: Ernest no epicentro da Revolução Espanhola, Ernest
e seu pelotão de voluntários ocupando o Hotel Ritz horas antes que os próprios aliados entrassem em Paris, Ernest e os recônditos da vida boêmia na capital francesa, Ernest escorraçando um ex-pugilista e seu leão de estimação que o estavam incomodando na penumbra de um bar, Ernest e sua capacidade de identificar um cavalo vencedor apenas pelo cheiro, Ernest patrulhando a costa de Cuba em seu barco de pesca,
qual um almirante, em busca de submarinos alemães; etc, etc, etc. Aí está a essência do cativante conteúdo do livro, pleno de heroísmos e comportamentos rebeldes, tão ao gosto do americanismo pós-guerra.

Quanto à forma, há alguns desagrados. O autor de Papá Hemingway adota um estilo excessivamente literário para o que é essencialmente uma reportagem. Vai daí que a narrativa não flui como devia. Muitas vezes o leitor fica sem saber se uma reminiscência contada no livro é de Hemingway ou do próprio Hotchner o que o obriga a reler linha anteriores para poder se situar. Lições de André Maurois mal aprendidas. Mas enfim, quem sabe Hemingway fosse o alter ego de Hotchner e foi isso que moldou o estilo entrelaçado da narrativa. De qualquer forma a linguagem é truncada, ainda mais dadas as inúmeras deficiências editoriais do livro. Faltam aspas e os parágrafos são mal distribuídos. Há evidentes deficiências na tradução, expressas nas inúmeras frases sem sentido e palavras sem nexo encontradas com alguma frequência.
O fim da história é trágico, como todos nós sabemos. Possibilidades para as causas do suicídio do ganhador do Nobel de Literatura de 1954? São várias. Havia uma compulsão genética. O pai de Hemingway se suicidara e ele, claro, sempre tinha esse radicalismo fincado na mente. Pobre Papá, no fim da vida suas glamorosas aventuras se reduziriam a um quadro de demência, acentuado pela mania de perseguição e pela compulsão suicida. Então, sua diversão principal se já resumia à caça sonolenta de pequenas aves nas planícies suaves de fazendas de amigos. Mas, o que é pior: seu talento literário arrefecia e acabaria por travar inteiramente aumentando o seu desespero. Para completar havia a decadência física e a consciência de que jamais veria Paris novamente pois a festa havia acabado. Também houve sucessivos erros médicos no tratamento psiquiátrico de Ernest. Combinação explosiva que culminou com um tiro de espingarda no palato. Final trágico da realidade brigando com a ficção... à Hemingway. Hotchner não quis se perguntar muito sobre esse fim inglório pois havia uma bela e duradoura amizade no meio. Mas também essa lacuna não tem assim tanta importância e Ernest Milles Hemingway continua lendário meio século depois da sua morte.

A.E. HOTCHNER
Papá Hemingway
Editora Civilização Brasileira, 1967


DIÁRIOS DE AUTORES – FERNANDO PESSOA

O poeta português acorda tarde pois tem preguiça de enfrentar o longo domingo que o espera. Hoje não teria que descer à Baixa Pombalina para trabalhar no seu monótono e medíocre ofício de redator de textos em inglês no escritório comercial onde trabalha. Mas está pensando em passar o fim da tarde no Chiado como sempre faz, bebendo um copo no Martinho da Arcada, debaixo dos arcos da praça do Comércio.

O quarto do casarão da rua Coelho da Rocha nº 16, no Campo de Ourique, está escuro e com as janelas fechadas. Há um forte cheiro de álcool e tabaco boiando no ambiente mas o poeta não sente pois ele próprio está impregnado de álcool e tabaco. Fernando Pessoa abre os olhos e não leva mais do que alguns segundos para despertar a consciência para a condição em que se encontra: deitado no sofá, coberto com um xale incestuoso que havia pertencido a sua mãe, vestido com as mesmas roupas amassadas da noite anterior e com o mesmo dasacorçoo existencial das milhares de noites e dias mais anteriores ainda. Mas está lúcido e sóbrio como sempre está. Não sente especial remorso pelo excesso de garrafas vazias e guimbas de cigarros que flutuam à sua volta. Ressuscita um pouco como faz a cada despertar e resolve começar o dia tomando um banho e lavando o que desse para lavar da noite anterior. Despe-se indisciplinadamente, atirando as roupas pelos cantos como se fossem trapos sujos. Veste o roupão encardido e vai para o banheiro igualmente encardido. Não se demora pois o banho frio não é nem um pouco confortável. Mas a água reanima e dá sobrevida. É tudo que ele precisa agora para seguir sua rotina dominical. Veste-se, deixando o colete e a gravata para quando for sair ao Chiado. Desce à rua, abre a porta e põe o pé na calçada. Apesar do dia estar nublado e chuvoso aperta os olhos por trás dos óculos redondos de tartaruga, para mitigar a claridade. Caminha até a esquina e entra na mercearia do Trindade em busca da primeira refeição do dia. O poeta já encontra limpa a mesinha de que habitualmente se serve, semiescondida numa dobra de um dos cantos do salão da mercearia, ao lado da entrada do balcão. O proprietário o cumprimenta alegre e respeitoso e em seguida começa a servi-lo, pois já sabe de cor qual será o pedido do freguês. Primeiro um cálice de Aguardente Macieira, depois umas fatias de pão com fiambre e queijo e, para arrematar, uma boa chávena de café preto e forte. A refeição é rápida. Fernando Pessoa termina, limpa o colo com um guardanapo, levanta-se e se despede do amigo Trindade com um simples gesto, batendo dois dedos na aba do chapéu. No balcão encontra um embrulho amarrado com um cordão. É a sua encomenda de todo dia: duas garrafas de Macieira. Acomoda o embrulho debaixo do braço e sai devagar. Não faz nenhum pagamento. Tem crédito ilimitado na mercearia do Trindade. Paga quando pode. O faz regularmente mas nunca conseguirá liquidar o débito totalmente. Credor e devedor sabem disso, mas nenhum dos dois se incomoda.

O poeta volta pra casa, abre o embrulho, coloca as garrafas sobre a mesa e não toca mais nelas. Abre as janelas e olha pra fora. Deixa entrar a luz do dia com alguma satisfação. Sente-se bem, respira fundo. Mas longe está ainda de pensar em agradecer a Deus por estar vivo. Regressa à rasa realidade da sala. Vai até a estante e escolhe alguns livros de poetas clássicos ingleses. Pretende lê-los até a hora do almoço. Abre-os nos locais marcados. Confere anotações às páginas. Faz outras. Embriaga-se com a leitura e com ela interage mudo e apaixonado. Não vê as horas passar. Fuma muito, mas não sente falta do álcool. Quando se dá conta já são 13:30 horas. Passa da hora em que pensava descer ao Chiado. Interrompe a leitura, veste o colete, enlaça a gravata, encaixa o chapéu na redoma da cabeça, mete o paletó e sai em direção ao bairro onde nasceu, onde trabalha e onde se embriaga de álcool e poesia e passa a maior parte do dia, olhando Portugal, os passantes e o interior convulso de si mesmo. E onde sente falta dos amigos: os que não vieram, os que já se foram e os que nunca teve. No caminho compra um exemplar do Diário de Notícias. Será sua única companhia certa naquela tarde domingueira. Atravessa o arco da rua Augusta e entra da praça do Comércio: seu pequeno mundo de estrangeiro na terra em que nasceu. Assenta-se na mesa que o espera no Martinho da Arcada. Passa a tarde lendo o jornal e tomando taças de vinhos fortes do Minho. E desse modo vai matando, como pode, o domingo e a angústia que o dia santo produz. Nenhum amigo aparece. Não almoça de verdade, apenas degusta uma dúzia de sardinhas bem curtidas em azeite aromático. Às 17:00 horas resolve voltar pra casa. É cedo pelos seus hábitos, mas ele já se enfarou daquele insípido ritual. Resolve voltar a pé, gastando mais um pouco do dia dominical, sempre tão comprido na sua descabida duração, especialmente para os solitários. É uma longa caminhada e apesar, dos vapores do vinho Fernando Pessoa vence bem os morros do bairro Alto. Pequenas paradas para mais um copo não impedem que às 18:00 hora o poeta já esteja em casa. Ao entrar na sala uma pequena surpresa: Álvaro de Campos o espera. Está sério e angustiado. Trocam poucas palavras. O poeta pergunta ao visitante o que estava fazendo ali. A resposta foi seca e o diálogo nem continuou. Na sequência o dono da casa simplesmente se deitou e adormeceu, ignorando a visita. Álvaro de Campos já estava acostumando com aquele tratamento, embora entre os dois prevalecesse o entendimento e até uma certa ternura. Assim não se agastou. Fechou os olhos e permaneceu alguns minutos ausente, enquanto Fernando Pessoa rocava sem nenhuma educação. Álvaro de Campos, contudo, não parecia bem e era exatamente por isso que estava ali. Extravasava angústia, franzia o sobrolho, esfregava as mãos. Levantou-se, cruzou a sala de um lado para outro. Volta e meia fechava os olhos e passava a mão na cabeça como se tentasse se ungir a si mesmo. Depois abriu a janela, olhou para fora em busca de ar fresco e de algum alívio para o torniquete da alma. A medida foi contraproducente. A alegria da rua o desacatou. Caiu ainda mais. Lembrou de passagens de um poema que havia escrito algum tempo antes, nas mesmas circunstâncias:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Fernando pessoa acordou somente no meio da manhã do dia seguinte. Álvaro de Campos já não estava lá. O Poeta ouviu o ruído da rua, abriu a janela, lembrou-se do domingo anterior e de todos os dias da sua vida. Sentiu-se agredido com a alegria da rua e a vida palpitante da tabacaria em frente. Lembrou-se dos versos de Álvaro de Campo e chorou mais uma vez...

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Em seguida, recompôs-se e foi trabalhar, com toda a dedicação e competência como sempre fazia, suportando a dor e tentando viver modestamente, à espera da imortalidade que viria um dia.

Lisboa, 24 de março de 1929


BIBLIOTECAS E PEN-DRIVES

Na década de mil novecentos e cinquenta, quando a televisão começou a se popularizar, surgiu a primeira discussão a respeito da inclinação predadora dos modernos meios de comunicação. Muitos previam que o novo meio de transmissão de imagem e som, pela sua capacidade de penetração doméstica e simplicidade de produção, liquidaria rapidamente com o cinema e o rádio. Nada disso se confirmou: o rádio foi minimamente afetado e o cinema, com pequenos ajustes táticos, cooptou com a própria televisão, reencontrou seu caminho e seguiu em frente, firme e forte. Na verdade aquela discussão era um tanto desnecessária pois cinema, rádio e televisão tinham individualmente bons espaços para prosperar e foi isso que aconteceu.
Há uns cinco anos surgiu uma nova discussão desse mesmo tipo, agora envolvendo os rapidíssimos, práticos e virtuais meios de comunicação do século XXI. Refiro-me especificamente a um possível embate surdo e mortal que estaria sendo travado entre o livro tradicional e o chamado “livro eletrônico”. Permitam-me adiantar abruptamente as conclusões desse artigo para dizer que essa discussão também é imprópria pois nem sequer existe uma dicotomia. Em primeiro lugar porque nem existe “livro eletrônico”. Sim pois a existência de algo a que se possa chamar “livro” pressupõe a presença de alguns requisitos essenciais de natureza física. Simples assim. Diz o Aurélio: “livro é a reunião de folhas ou cadernos, cosidos ou por qualquer outra forma presos por um dos lados e enfeixados ou montados em capas flexíveis ou rígidas”.
E o Houaiss: “livro é uma coleção de folhas, impressas ou não, coladas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura, etc., formando um volume que se recobre com capa resistente”.
A palavra “livro” vem do latim liber, libri, termo pelo qual se identificava a parte interna das cascas de árvores que os primitivos romanos usavam para gravar seus escritos. Daí passou a identificar as obras literárias e se incorporou à terminologia da civilização moderna. Pressupõe um meio físico que tem cheiro, peso, tamanho, volume e uma capa artística que você folheia na livraria, compra, carrega pra casa, lê e coloca na estante onde ele fica visível e à disposição para ser relido ou consultado por anos e anos. Para muito são como membros da família: presentes, lembrados e amados. Mas ninguém ama um “livro” eletrônico. Claro que você vai dizer que eu não passo de um bibliófilo romântico. Pois devo admitir que é isso exatamente o que eu sou. Mas a minha paixão não é cega como parece à primeira vista. O uso dos meios eletrônicos ocupa relevante espaço na minha vida literária, inclusive tenho obras disponibilizadas na internet para serem baixadas por quem quiser. Mas para meu conforto espiritual gostaria de fazer uma pequena correção conceitual e banir o uso do termo “livro eletrônico” preferindo chamar o recém-nascido de “edição eletrônica”. Parece apenas preciosismo da minha parte, mas não é pois necessito dessa singela distinção para fundamentar minha afirmação de que não há uma dicotomia e que, por isso mesmo, o livro eletrônico não vai devorar o livro tradicional. Cada um tem a sua função e elas não se confundem, não se chocam nem são excludentes. Pessoalmente não abro mão do contato físico com o livro, seja visual ou táctil. Admiro as encadernações artísticas e os trabalhos de restauração de livro raros. Nada me dá mais emoção do que manusear um livro editado há cem, duzentos, trezentos anos. Bibliotecas como a Nacional ou o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro me fascinam. Mas também me fascinam as edições digitalizadas da Brasiliana da USP ou a coleção de obras raras luso-brasileiras da biblioteca da universidade John Carter Brown dos Estados Unidos que você pode baixar no tablet, guardar e ler quando quiser. É uma bela democratização da informação que só a era digital veio proporcional e que permite a uma pessoa comum como eu conhecer e ler aquelas belíssimas edições originais de obras publicadas nos séculos XVI, XII etc. Mas, por outro lado, não consegui me adaptar às minhas experiências com o kindle e hoje não tenho nenhum e-book “guardado” em casa. É que não tenho nenhuma atração por eles: são demasiadamente virtuais. E aqui não consigo ocultar meu lado mais conservador na matéria. Mas reconheço que, quem não se importa em guardar sua biblioteca em um pen-drive ou HD, tem todo o direito de fazê-lo. Só terá que ter muito cuidado para não perder o tal dispositivo e rezar para que ele não se estrague nem se torne obsoleto no ano que vem. Quanto aos livros, temos conseguido vencer as traças com amor e paciência.


CARROÇAS ROMÂNTICAS

Genericamente não é impróprio chamá-los de coches, carros, carruagens ou mesmo carroças. Mas havia suas sutis especificidades variando meticulosamente de acordo com o clima da trama dos romances de Machado, Alencar, Eça e Camilo.
Em Iaiá Garcia, a imaginação de Machado de Assis determina que Jorge recorra a um tílburi para se deslocar até a casa do moribundo Luís Garcia em Santa Teresa. Em A capital, Eça de Queiroz põe Artur atravessando Lisboa várias vezes à bordo da tipoia do José Teso, eventualmente cruzando emocionado com a carruagem da fascinante Senhora do Vestido Xadrez. Volta e meia aparecia também um laudau em algum ponto do Chiado cheio de gente alegre passeando pela noite. Em Os Maias, bastou que Carlos levantasse o braço para que logo lhe aparecesse uma tipoia. Em Amor de salvação, Camilo Castelo Branco conta que Afonso colocou uma sege à disposição
da infame Palmira para que ela deixasse imediatamente a casa dele. Em D. Casmurro Machado de Assis registra a passagem do coche imperial mais de uma vez e fala algumas vezes da velha sege da família de d. Casmurro. Em Isáu e Jacó o Conselheiro Aires, necessitando de um tílburi, encontrou três disponíveis no Largo da Carioca e acabou se tornando objeto de uma disputa entre os respectivos cocheiros pelo privilégio de tê-lo como passageiro. Mais adiante conta Machado que no Cais Pharoux, dois cupês e um landau esperavam pela família Batista que regressava ao Rio de Janeiro. Em A pata da gazela José de Alencar não deixou de inserir no miolo da história uma linda vitória puxada por soberbos cavalos. Aliás, foi descendo de uma carruagem que a heroína do pezinho disparou toda a bem urdida trama do romance dos pés e seus respectivos fetichistas. Ainda Alencar, naquele suspense do final de Encarnação, insere um tráfego intenso de carros: Hermano pegando um tílburi para ir pra casa se suicidar, Amália pegando o seu cupê para correr atrás dele para impedir a tragédia e por fim, no final feliz, o casal descendo de uma vitória para visitar os escombros da casa que Hermano tinha ateado fogo, tentando virar churrasco.
Tílburi, landau, coche, sege, cupê, vitória; elegantes veículos do século XIX a transportar românticas personagens literárias pelas ruas de Lisboa e do Rio de Janeiro levados por Eça, Camilo, Machado, Alencar e outros. Mas o que eram esses curiosos veículos antigos, hoje preciosas peças de museus? Como os veículos automotivos de hoje, as carruagens do passado tinham características e funções diferenciadas, embora muitas vezes sutis. Pela ambientação dos romances antigos dos mestres do romantismo e do realismo da literatura luso-brasileira do século XIX nem sempre é possível identificar essas diferenças com razoável precisão, mas elas existiam.

As tipoias de Eça de Queiroz nada mais eram do que os taxis de hoje. Tinham exatamente a mesma função que eles, ou seja, transportar o passageiro conforme a necessidade dele a troco de uma tarifa. O termo tipoia não caracteriza exatamente um tipo de carruagem e sim a modalidade do transporte. Assim os veículos de aluguel que prestavam serviços à população da Lisboa de Eça tanto podiam ser um tílburi, quanto um laudau ou uma sege ou cupê. O modelo dependia mais das necessidades precípuas do cliente. Um tílburi, por exemplo, não era recomendado para pessoas que quisessem se locomover com certa discrição. Isso porque os passageiros ficavam expostos à identificação pública. Mesmo assim nos romances antigos, volta e meia aparece uma senhora casada tomando um desses veículos para ir encontrar o amante. Um perigo pois o veículo tinha apenas uma cobertura no teto e nas laterais do assento. Possuía duas rodas e podia transportar um ou dois passageiros ao lado do cocheiro. No Brasil não era comum usar-se o termo "tipoia”para identificar os serviços antigos de taxi e sim "tílburi", ou seja o próprio nome do modelo de carruagem mais usada no serviço e que deriva do inglês Tilbury, nome do inventor do veículo, originário de Londres.
Como dito, eventualmente era possível encontrar também algum landau de aluguel.
Mas em geral eles eram o meio de transporte das famílias abastadas. São aquelas carruagens suntuosas, conversíveis, com dois bancos um em frente do outro. O cocheiro vai à frente num banco mais alto conduzindo duas parelhas de cavalos. Um criado de libré vai atrás, em pé, pronto para abrir a portinhola e ajudar os distintos passageiros a descer com toda a elegância.
O coche imperial de que Machado de Assis fala em d. Casmurro, muito sutilmente reforça a fama de que até ao Segundo Reinado a Família Imperial brasileira ainda usava os mesmos velhos veículos trazidos por d. João VI de Portugal. É que os duros e desconfortáveis coches há muito já haviam sido substituídos por carruagens dotadas de sistemas de molas e traves que suavizavam grandemente os sacolejos provocados pelos pisos de macadame e pelos buracos das rudes entradas de então.
Também os cupês podiam ser encontrados na praça de aluguéis, embora, no geral, fossem veículos particulares. Tinham as mesmas características dos tílburis, com a diferença de terem quatro rodas e serem fechadas por um vidro ou cortinado que separava precariamente o cocheiro dos passageiros. Portanto podia transportar duas pessoas, além do cocheiro. Mas a variedade não parava por aí. Havia ainda a sege. Era parecida com o cupê porém um pouco maior, podendo transportar três pessoas. O banco dos passageiros era inteiramente fechado e isolado do banquinho do cocheiro.
Existiam ainda uma infinidade de modelos, alguns identificados pela marca do fabricante, tal qual os automóveis de hoje. Mas como não queremos desvincular as carruagens dos seus contextos literários vamos encerrar falando das famosas vitórias. Machado e Assis e José de Alencar, como vimos, as usaram também em suas ambientações literárias. Tratava-se de um tipo de carruagem criada na Inglaterra na segunda metade de século XIX em homenagem à rainha Vitória. Tinha características parecidas com as do cupê, porém com linhas e acabamento muito mais elegantes. Dizem que era o veículo preferido para as moças de família rica passear.
Enfim, temos aqui um pequeno apanhado sobre carruagens do século XIX e um apanhado menor ainda sobre a figuração delas em contextos aleatórios de alguns livros de ilustres escritores da época. Devo reconhecer que, apesar dos meus nobres esforços, esse
tratado não passa de mera curiosidade intelectual. Até porque, um livro não é uma tela de cinema e o espaço que deixa para que o leitor possa extravasar a sua imaginação é exatamente o aspecto mais sublime da linguagem literária. Portanto, leitor, imagine a sua carruagem como bem quiser e bom passeio nas páginas dos seus livros.

Romances diversos de:

Machado de Assis
Eça de Queiroz
José de Alencar
Camilo Castelo Branco


TRÊS MAIS UM, MAIS...

Havia eu feito comentários sobre livros publicados por três poetas da minha terra que muito me agradam e me fazem vê-los como poetas maiores. O dito comentário teve repercussões surpreendentes para a pequenez da pretensão deste singelo escriba, não por acaso, também poeta. Alguns entenderam que eu estava fazendo uma avaliação crítica da qualidade de toda a produção poética realizada pelos autores do meu grado rincão e, o que é pior, que eu estava selecionando os bons e desclassificando os outros, como se fosse um concurso. Na verdade pretendia apenas comentar três livros que havia lido ou relido recentemente. Minha mulher acha que a culpa da polêmica foi minha pois não consegui ser muito claro nesse ponto. De toda forma a tréplica me pertence e, para quem não me conhece, devo revelar que detesto comparações e disputas. Deixei de participar de concursos literários há muito tempo. Quem é melhor: Sócrates ou Platão, Ambrósio ou Agostinho, Michelangelo ou Bernini? São perguntas sem nenhum sentido. De sorte que quando falei dos três poetas eu não estava fazendo comparações, nem crítica literária. Sou apenas um leitor. Mas o equívoco deu-me lucro, afinal. É que muitos ficaram indignados com a exclusão” do Poeta Wilson Pereira da suposta seleção dos melhores da minha terra e acabei ganhando um livro de presente com parte da obra do admirado poeta. Conhecia a fama, mas não conhecia a obra.
É que deixei a minha terra há muito tempo e, com exceção dos amigos, não tive muito contato com as novidades literárias de lá desde a década de setenta. Tudo bem: não há prazo de validade para obras literárias. Li o livro com interesse e me julguei na obrigação de comentá-lo também, até como respeito à opinião daqueles que protestaram.
Ao contrário do que acontecia com Altino, Ricardo e Wandão não conheço o poeta nem convivi com ele. Assim tive que recorrer a terceiros para saber mais sobre o autor e a pessoa. Descobri que Wilson Pereira não tem somente leais admiradores patrícios, mas também respeito e reconhecimento, aquém e além-mar. Pode ser considerado um autor de sucesso, pelo menos nos termos limitados a que estão perpetuamente condenados os abnegados autores das terras incultas de Santa Cruz. Tem cinco livros publicados e figura em quinze antologias. Ganhou prêmios, comendas e tem poemas traduzidos em diversas línguas. Com exceção de Autran Dourado, nenhum autor da minha terra conseguiu acumular tantos louros. E aqui não posso resistir à tentação de fazer um jogo de palavras lembrando que Autran Dourada nasceu na minha terra, mas não é de lá e Wilson Pereira não nasceu lá mas, pelo que me disseram, se considera.
Mas não é propriamente do respeitável reconhecimento da obra do poeta que eu trato aqui. Meu propósito, como dito, é transmitir minhas impressões do livro de Wilson Pereira, A pedra de Minas poemas gerais. Trata-se de uma coletânea incluindo a republicação dos poemas dados a público nos livros Escavações no tempo de 1974, Menino sem fim de 1988 e Pedras de Minas de 1994. Figura ainda na coletânea os poemas enfeixados no livro inédito Decantação, de 2002.
Avalio obras literárias pela simples emoção. Leio, gosto, não gosto, recomendo, não recomendo. Dentro dessa fórmula de um leitor comum, devo começar dizendo singelamente que, como acontece em qualquer ofício, existem bons e maus poetas. Em grande parte essa qualificação é meramente estatística. Sim pois, todo poeta tem bons e maus momentos. Confesso que, até por viés de formação profissional, não me recuso a analisar a grandeza de um poeta por critérios aritméticos, mesmo reconhecendo que existe a intensidade da emoção e que isso dificulta comparar os valores das partes de uma obra literária. Não vou fugir das minhas honestas inclinações ao comentar o livro de Wilson Pereira. Nele há poemas ótimos, bons e razoáveis. Os bons predominam e há algumas pequenas obras-primas. Quer dizer, o resultado aritmético é amplamente positivo. No detalhe, impressiona a unidade linguística das obras encerradas no livro, o que denota que o poeta nasceu maduro para a sua poesia. Não precisou mudar o seu discurso ao longo do tempo. E mais: começou com o pé firme adiante pois o que já fazia na década de setenta é o que os bons poetas do século XXI vêm fazendo hoje. Uma linguagem minimalista cheia de beleza onde cada palavra preenche um espaço estético enorme. É a competente dissecação do valor da geometria e sonoridade das palavras que só os bons poetas contemporâneos conhecem. Gosto da sonoridade horizontal dos versos, recurso que Wilson Pereira usa com competência, passando ao largo da insipidez típica das rimas forçadas. Os versos são extramente fáceis, fluentes e naturais. Tem-se a sensação de que o poeta nunca tem necessidade de retocar o que produz.
A pedra de Minas - poemas gerais é um livro terno e companheiro, daqueles que a gente deve carregar na mochila e ler sempre que sobra um tempo na lida antipoética da vida. Quando não está na mochila, está na minha estante no escaninho reservado aos bons poetas da minha terra. Ao lado dos livros do Altino, do Ricardo e do Wandão e... à espera de outros.

A pedra de Minas - poemas gerais
Wilson Pereira
Brasília: Editora LGE,2002


TRES POETAS

Minha terra tem três poetas. Na verdade tem muito mais pois minha terra é encantada. Pelo menos era. Hoje não sei. Mas estou me referindo especificamente aos poetas maiores que são três. Acompanhei de certa forma sua trajetória poética e os sinto perto. Mais perto ou mais longe, dependendo do tempo. Mas, de qualquer modo, acho que posso contar minha vivência com eles. Infelizmente vivência mais de leitor do que de companheiro. Não podia ser diferente, contudo.
Já os admirava há muito tempo, mas recentemente essa admiração emergiu de novo, pois livros seus me caíram às mãos quase simultaneamente. De sorte que os recolhi, transferi-os à minha oficina de livros, provi um restauro, aqui e ali nos mais antigos e os li ou reli com prazer.
Estou falando de Altino Caixeta de Castro e seu Cidadela da rosa: com fissão da flor, Ricardo Rodrigues Marques e seu Estilhaços da manhã e Wander Porto e seu Sopro da madrugada. Sofridas edições, daquelas que o autor trás a público recorrendo a parcos recursos próprios e ainda tendo que contar com uma pequena ajuda dos amigos, não obstante a grandeza das obras. Os livros do Altino e do Ricardo encontrei nos rescaldos da biblioteca do meu pai, autografados e em mau estado. Contêm alguns rabiscos de criança, provavelmente feitos pelo meu filho que hoje é professor de literatura brasileira. Encadernei-os e os incorporei à minha biblioteca, resgatando suas preciosidades. Com um pouco de sorte, ainda estarão lá daqui a cem anos, dividindo estante com o livro mais antigo da dita biblioteca: uma edição da Retirada da Laguna do visconde de Taunay, editado em Paris pela Garnier e que, daqui a três anos, vai completar cem anos de idade. O livro do Wander tive a honra de receber recentemente – novinho e lustroso – das mãos do próprio poeta. E aqui estão as obras dos poetas maiores da minha terra valorizando a minha livraria.
Altino Caixeta de Castro - o Leão de Formosa - é hoje um poeta consagrado e reconhecido nacionalmente, tema de vários ensaios e referências em revistas especializadas. Cidadela da rosa: com fissão da flor é seu livro de estreia, publicado em 1980. Na verdade é uma antologia que reúne o que o poeta tinha produzido até então, abrangendo um labor de trinta anos, finalmente dado à luz.
Os poemas estão ordenados cronologicamente, mas estilisticamente falando não se nota isso. Altino é atemporal, maduro e prematuro ao mesmo tempo. Saliente-se a enorme abrangência do poder criativo da sua poesia. A obra é uma espantosa” mistura, absolutamente contemporânea, apesar do poema mais recente ter sido escrito há mais de trinta anos. A poesia sem dúvida era a profissão de Altino e desde que ele sofreu um acidente automobilístico que quase o matou, passou a se dedicar inteiramente a ela. Talvez tivesse experimentado aí sua lição de eternidade.
Convivi com Altino nas casualidades das noites da minha terra, como aliás aconteceu com toda a minha geração. Quem não cruzou com ele de madrugada, andarilho sorridente, sempre com um caso interessante pra contar? Era isso o que ele era: essencialmente poeta e essencialmente noctívago. Gostava de vagar pela noite, sóbrio e alegre, conversando aqui e ali mas evitando declamar os seus versos, a não ser quando instigado. Altino era assim: tímido poeta, não obstante a grandeza da sua poesia. Morreu em 1995 aos setenta e nove anos, pleno de encantamento.
Ricardo Rodrigues Marques lançou os trinta e seis poemas de Estilhaços da manhã em 1967. Lembro que o livro me causou grande impressão e acredito que até tentei me tornar poeta em grande parte por influência do livro. É uma pequena joia poética, pelo minimalismo da forma e a exuberância singela do conteúdo. Tem a simplicidade das coisas grandes. Ricardo não fazia do exercício poético sua atividade principal. Ao magistério é que destinava seu maior esforço, lecionando teoria literária. De qualquer forma, fiel à sua vocação de homem de letras. Por falta de tempo ou por outros motivos Estilhaços da manhã é seu único livro publicado. Não tenho notícia da sua obra inédita, mas certamente a há. Morreu em 2008, vitima de um traiçoeiro ataque cardíaco. Tinha pouco mais de sessenta anos. A imagem dele que me vem agora é aquela de um cara magro, alto e simpático, metido no seu terno preto, atrás da sua gravata, magra como ele e preta como o terno. O conjunto preto de Ricardo contrastava belamente com os cabelos louros de Beatriz.
E aí chegamos a Wander Porto que está vivíssimo e produzindo como sempre fez. Ainda exibindo aquela figura eterna e simpática de intelectual desleixado. É da minha geração e acho que temos o mesmo útero poético, embora tenhamos estado distantes. Mas entendo bem a sua poesia e a admiro.
Sinto nela algo que me diz respeito. Sopro da madrugada, publicado em 2000 é sem dúvida uma das melhores obras poéticas da última década, aqui e alhures.
Wander é um mestre em obter equilíbrio entre a forma e o conteúdo, quesito indispensável a uma boa poesia. É ao mesmo tempo local e universal, cotidiano e metafórico. Sabe usar a sonoridade das palavras e arranjar a plasticidade das frases. Poeta, cantor e escultor ao mesmo tempo. Seus poemas são plenos de versos autossuficientes, quer dizer, completos em si mesmos. Privilegiado artífice da arte delicada que escolheu para capturar as belezas do mundo.
E eis os poetas maiores da minha terra, cheios de cidadelas, flores, estilhaços, manhãs, sopros, madrugadas... e sobretudo paixão.

Cidadela da rosa: com fissão da flor
Altino Caixeta de Castro
Brasília: Horizonte Editora, 1980

Estilhaços da manhã
Ricardo Rodrigues Marques
Patos de Minas: Editora da Academia Patense de Letras, 1967

Sopro da madrugada
Wander Porto
Patos de Minas: Edição Independente, 2000


FRAGMENTOS REQUENTADOS

Jorge Caldeira tem uma destacada carreira acadêmica e é autor de algumas obras importantes sobre vultos da história nacional. Há de se lembrar ainda que a editora Mameluco, da qual é cofundador, presta bons serviços à cultura nacional e é um negócio bem gerido. Não se pode, contudo, alinhar a obra Brasil, a história contada por quem viu entre seus trabalhos de destaque. Ao contrário, é um livro deficiente, cheio de boas intenções mal resolvidas.
à frente de uma equipe de mais de vinte pesquisadores, Caldeira pretendeu disponibilizar textos originais de pessoas que – como o título da obra apregoa – viram a história do Brasil acontecer. O resultado, porém, é uma colagem solta e fragmentada de proveito duvidoso e longínquos méritos historiográficos. Há falhas de rigor investigativo, surpreendentes pela quantidade de recursos despendidos na produção da obra e pela capacidade já demonstrada por Caldeira anteriormente, sobretudo na sua notável biografia do barão de Mauá. Há pouca pesquisa de fontes primárias, sendo à maioria dos textos transcritos de outras obras, inclusive do próprio organizador. Quer dizer a originalidade dos textos reproduzidos tem muito gosto de coisa requentada, passível do risco de distorção tão comum às transcrições sucessivas. Dei-me ao trabalho de contabilizar os tipos de fontes usadas para obtenção dos textos das “testemunhas da história” e verifiquei que menos da metade delas provêm das fontes originais, ou seja, das obras republicadas dos próprios autores transcritos. As demais são oriundas de obras de terceiros sujeitas aos riscos próprios das transcrições, mesmo quanto originárias de autores respeitados. Acontece que muitos autores gostam de adaptar expressões antigas aos tempos modernos, prática que tem enorme potencial de ir ampliando as distorções.
Vejam o singelo exemplo, atirado da carta do descobrimento de Pero Vaz de Caminha reproduzida na obra de Caldeira.
Ambos traziam os beiços debaixo furado e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento de uma mão travessa, da grossura de um fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço. A parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como torre de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os magoa, nem os estorva no falar,
no comer ou no beber
. (Jorge Caldeira, fonte Jorge Caldeira)

Traziam ambos hos beiços debaixo furados, e metudos por eles senhos* onos
doso bramcos de compridam de
huuma maao travesa, e de grosura de huum fuzo dalgodam, e agudo na ponta, coma furador. Metem nos pola parte de dentro do beiço, e ho que lhe fica antre o beiço, e hos demtes hee feyto coma roque denxadrez: e em tal maneira ho trazem aly emcaxado, que lhes nom da payxam,
nem lhes torva a falar, nem comer, nem beber
. (Aires de Casal fonte: carta original da Torre do Tombo)

*Senhos vem do latino singuli: senhos onos doso, i.e: cada um seu ono d’osso ( Nota de Casal).

Provavelmente, o que Caminha estava querendo dizer com o senhos onos é que cada índio tinha nos beiços um osso personalizado, por ele próprio confeccionado e colocado. Coisa que a “tradução” transcrita por Jorge Caldeira não permite perceber.
Um outro problema da obra sob exame é a fragmentação dos textos escolhidos, abstraídos que foram de contextos maiores, mediante o uso de critérios certamente plenos de subjetividades. Pecam pelo minimalismo o que faz com que muitos fragmentos fiquem flutuando sem sentido e, muitas vezes, sem nenhuma sintonia com o título atribuído ao fragmento. É o caso, por exemplo, da reprodução do fragmento das Cartas Chilenas de Gonzaga, ou do Triunfo Eucarístico de Simão Ferreira Machado.
Um terceiro problema é a má qualidade das notas de rodapé. Por exemplo, “pintas” (de ouro) no século XVIII significava “pepita” ou o local onde elas podiam ser encontradas e não “aparência/aspecto” como ensina a nota de rodapé gerada para ilustrar o leitor menos familiarizado.
De Jorge Caldeira e a editora Mameluco esperava-se coisa melhor, ainda mais contando com apoio do Banco Itaú e da Lei de Incentivo à Cultura. Não há dúvida que o interesse editorial prevaleceu sobre o interesse historiográfico.

Brasil, a história contada por quem viu
Jorge Caldeira (org.)
Editora Mameluco: São Paulo, 2008


A CASA DOS PAVÕES PREGUIÇOSOS

Numa entrevista, logo após a sua posse na Casa dos Imortais, Celso Furtado havia dito que a Academia Brasileira de Letras era uma das poucas instituições civis que tinham se mantido independentes do estado, da igreja e do exército. Esta afirmação provocou risos e foi o mote que levou o escritor Fernando Jorge a escrever o seu A Academia do Fardão e da Confusão. Segundo ele tenta demonstrar no livro, independente é tudo o que a nossa academia não é. A partir dessa motivação Jorge construiu uma história da chamada Casa de Machado de Assis” impregnada de críticas contundentes fundadas na ideia geral de que o templo brasileiro da literatura é uma casa submissa, vaidosa, desonesta, inútil e um covil de escritores medíocres. Ou, nas suas próprias palavras, uma instituição estéril, ridícula, inerte, amorfa, caquética, hipócrita, interesseira, politiqueira, cômica e pomposa. Destaca a vaidade pavonesca da maioria dos acadêmicos, a escandalosa omissão do nosso mais ilustre grêmio literário diante da censura das ditaduras que nos assolaram em 1937 e 1964, a politicagem do processo de eleição dos acadêmicos e a inocuidade da contribuição da academia para o incremento da cultura brasileira. Salienta que, depois da tentativa frustrada de produzir dicionários e publicar obras de verdadeiro valor, a única atividade pública da academia é patrocinar prêmios literários inexpressivos. No mais, o que os acadêmicos fazem de mais eletrizante é tomar chás com bolo de aipim, toda quinta-feira.
O autor de A Academia do Fardão e da Confusão é conhecido por duas características marcantes: o rigor na pesquisa das fontes de informação que embasam seus livros e o tom enfático e virulento com que critica seus desafetos. A primeira característica lastreia a segunda e é assim que ele, apesar do tom debochado e viperino dos seus textos, consegue ser levado a sério. É impossível, às vítimas de Fernando Jorge, fingir que ele não existe e simplesmente desprezá-lo. Mas em geral elas preferem o silêncio. Detentor de grande erudição, sólidos conhecimentos de literatura brasileira e bom domínio da linguagem jornalística Fernando Jorge é dono de um estilo claro, correto, lógico e contundente que é ao mesmo tempo agradável, surpreendente e hilário. Escreveu vários ensaios políticos e biografias, entre ela a de Paulo Francis a quem acusa de ser um notório plagiador. Em outras obras critica a competência poética de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto.
Em “A Academia do Fardão e da Confusão” Fernando Jorge não foge da crítica frontal e vai destilando seus ácidos conceitos, repletos de adjetivos cortantes. Para ele Mário de Alencar não passava de um clone de Machado de Assis, Olegário Mariano era poeta de mijo curto, Hélio Silva era um plagiário e Nélida Pinõn é uma escritora medíocre com cara de índia mexicana que comete inúmeros erros gramaticais em seus livros. Acredita que Lauro Muller, Getúlio Vargas, Luiz Vianna Filho, Eduardo Portela, José Sarney, entre outros, só conseguiram uma cadeira na Academia Brasileira de Letras porque eram políticos influentes, assim como Gustavo Barroso e Lira Tavares se elegeram apenas porque eram militares de altas patentes. Outros se elegeram simplesmente porque eram ricos. Fala das traições eleitorais e das emboscadas”que os acadêmicos organizavam para seduzir seus críticos a se candidatarem a uma vaga na academia apenas para serem derrotados.
O livro é de leitura agradável, prende a atenção e merece credibilidade. Mas claro, Fernando Jorge tem lá os seus defeitos. Por exemplo, pouco fala dos verdadeiros talentos literários da academia, preferindo tratá-los como personagens secundários. Mas cabe reconhecer que, apesar da peçonha na ponta da sua pena, Jorge procura separar judiciosamente o talento do caráter. Assim, não raras vezes, critica o escritor mas não deixa de elogiar o homem ou a mulher. Claro que o autor também não poderia deixar de dar especial destaque ao caráter daqueles que renunciaram à condição de imortais como Graça Aranha e Rui Barbosa. Da mesma forma, reserva lugar especial para aqueles acadêmicos que foram veementes críticos uterinos da Academia como Afrânio Peixoto, Silvio Romero e Humberto de Campos, ou outros que dispensaram a honra da imortalidade acadêmica, como Monteiro Lobato.
O autor de A Academia do Fardão e da Confusão”sempre foi polêmico, mesmo porque a crítica contundente é a arma que escolheu para lutar a favor de seus valores, de que faz parte tolerância zero em relação aos falsos talentos literários, aos intelectuais vaidosos e arrogantes, aos omissos e picaretas em geral. No seu livro mostra, enfim, que a Academia Brasileira de Letras está e sempre esteve repleta deles.

A Academia do Fardão e da Confusão
Fernando Jorge
Geração Editorial: São Paulo, 1999


HISTÓRIAS DE LIVROS

Raras vezes pensamos nos livros como objetos, quer dizer, como um conjunto de folhas contíguas, costuradas e enfaixadas numa capa de papel mais duro. É natural que seja assim pois, embora muitas obras sejam estampadas em edições preciosíssimas, o que importa mesmo é a obra, ou seja, o que vai dentro. Mas confesso que, em se tratando de livros, também suas exterioridades costumam chamar minha atenção. E não é propriamente pelo valor editorial ou pelo capricho artístico da edição, mas pelo livro como entidade, vale dizer uma coisa que tem aspecto, idade, dono e serventia. Enfim, que tem uma história. Uma anotação, uma assinatura, uma dedicatória, uma data, uma folha seca esquecida prensada numa página contam histórias e essas histórias me fascinam. Devo adiantar que tenho mania de examinar livros, tentando resgatar sua própria história. É mais uma das inúmeras possibilidades que os livros oferecem.
Muitos livros se tornam interessantes, independentemente de valor, raridade ou da obra que contêm. Basta examiná-los com um olho diferente. E é tudo muito simples pois tal exame consiste, simplesmente, na identificação dos sinais externos do livro e na tentativa de
decifrá-los em busca da sua história. É uma outra forma de fascínio ao alcance de um leitor apaixonado.
Nesse instante tenho nas mãos dois livros com algumas exterioridades interessantes. O primeiro é uma biografia do visconde do Rio Branco, escrita por seu filho o barão do Rio Branco, que peguei emprestado na biblioteca pública. A história do livro parece mesmo tão interessante quanto a vida do ilustre visconde. Trata-se de um exemplar artisticamente encadernado, cheio das marcas do tempo. Não há data da impressão, mas parece que é de 1941, ou seja, o livro já completou setenta anos de idade. Isso significa que ele já viveu mais do que o
próprio visconde do Rio Branco, que morreu com sessenta e um anos. Examinando a ficha de controle de empréstimo podemos conhecer a essência da história do livro como membro valente do acervo de uma biblioteca pública. A obra é clássica, o exemplar é o único da biblioteca mas, nos seus setenta anos de vida, foi emprestado apenas onze vezes. Ou seja, a obra é lida em média uma vez a cada seis anos. Infelizmente no registro dos cinco primeiros empréstimos não há indicação do ano mas apenas do mês e dia em que o exemplar deveria ter sido devolvido à biblioteca. Mas deve ter muito tempo pois os meses estão grafados em inglês, quer dizer, é do que tempo em que ainda
não se fabricavam carimbos no Brasil. Irresistível informar, ainda, que o antepenúltimo empréstimo foi feito em outubro de mil novecentos e oitenta e um, o
penúltimo em outubro de dois mil e cinco e o último em agosto de dois mil e onze. Vale dizer, então, que o livro já ficou dormindo na estante durante vinte e quatro anos e se, eu não tivesse me interessado por ele cinco anos depois, poderia estar a caminho de um novo recorde. Mas não importa lá estará ele, quietinho na estante, à disposição para contar a história de alguém que daqui a alguns séculos ainda terá o seu lugar na História do Brasil.
O outro livro que tenho à mão agora, pertence à minha própria modestíssima biblioteca. Em tempos de vacas menos magras andei garimpando obras em sebos e pude adquirir algumas coisas interessantes que hoje ostento orgulhoso num escaninho da estante. Este de que falo é a edição original da obra clássica de Lúcio José dos Santos sobre a Inconfidência Mineira. É um belo capa dura”original, com lombada gravada à ouro, entre frisas em baixo relevo. Foi editado em mil novecentos e vinte e sete, portanto está em pleno viço dos seus oitenta e quatro anos. Posso afirmar com certeza que o livro já pertenceu ao Jair de Melo e ao Sr. Júlio Soares. Sim, pois esses dois cavaleiros tiveram a preocupação de gravar seus nomes no exemplar. O primeiro com caneta tinteiro e o segundo valendo-se de um artístico carimbo. Posso arriscar dizer que esses cavalheiros, se estão vivos, devem estar beirando os noventa anos. Mas o mais provável é que um ou outro não sobreviveu ao livro. Posso afirmar também que o livro foi comprado na Livraria Rex pois essa informação está escrita no final do livro. Posso afirmar ainda que a aquisição foi feita pelo Sr. Jair de Melo pois a grafia e a tinta são as mesmas usada por ele para escrever o seu nome na primeira página. Nenhum dos dois vez anotações no livro o que não nos permite saber o que acharam dele mas, em compensação, manteve o livro limpo e nos poupou daqueles comentários ,em geral pedantes, que certos leitores costumam nos brindar, especialmente nos livros clássicos.
Não sei quanto tempo mais esses dois livros vão continuar por aí, mas creio que por muito tempo ainda, pois não há traços de traças e as encadernações são de boa qualidade, compatíveis com a duração que as duas obras merecem. Assim as histórias continuam. Que outros venham contá-las!

O Visconde do Rio Branco.
Barão do Rio Branco
Rio de Janeiro: A Noite Editora, 1941 (?)

A Inconfidência Mineira
Lúcio José dos Santos
São Paulo: Escolas Profissionais do Liceu Coração de Jesus, 1927

(Os livros, não as obras.)


ADORÁVEL CONDESSA

As razões que ligam um biógrafo ao seu biografado não são muitas, nem precisam. Admiração, curiosidade, adoração e, às vezes, ódio.
As duas últimas, sem embargo, são as mais danosas. Têm a desvantagem própria de todo trabalho intelectual apaixonado, quer dizer, embota a capacidade de interpretar os fatos com a isenção que a boa dedução requer. E é aí que pessoas relativamente comuns se tornam personagens extraordinárias. É o que faz Mary Del Priori em seu livro "Condessa de Barral - A paixão do imperador". A biógrafa tem verdadeira adoração pela sua biografada. Não poderia ser diferente com uma autora tão fascinada em mostrar do que as mulheres são capazes.

Para Mary Del Priori, Luisa Margarida Portugal e Barros - a condessa de Barral, seria uma mulher à frente do seu tempo, terrivelmente cativante e sedutora, com trânsito livre no grand monde parisiense e na corte francesa do Rei Cidadão. Um caso raro para uma baiana do recôncavo açucareiro do século XIX, mesmo sendo filha de um abastado usineiro, diplomata e senador do império.

Mas não é bem uma mulher extraordinária que uma leitura mais acurada dos dados coligidos pela própria autora sobre a vida da de Barral, objetivamente revelam.

Mary Del Priori exagerou na tarefa que se impôs de mostrar ao mundo o quão maravilhosa era a condessa de Barral, a irresistível paixão do imperador d. Pedro II. Por conta de tanto entusiasmo acabou por produzir um texto inconsistente, tendencioso e cheio de descrições encomiásticas que, muitas vezes, chegam à beira do ridículo. Sem dúvida é essa a categoria onde consigo enquadrar um trecho em que a autora se empenha em mostrar que a condessa era capaz de transformar os mais banais rituais palacianos em verdadeiras obras primas de traquejo social. Senão vejamos: "Quando se adiantou para cumprimentar o par imperial, reza a lenda que chegou perto da perfeição. O imperador, que vira tantas reverências na vida (...) encantou-se com a obra de arte de Luiza (...). Ela deu ao seu caminhar um movimento concêntrico e harmonioso como uma serpente sobre a grama (...). Avançava o pezinho, modelando o vestido com tanta precisão que provocava admiração e desejo, comprimidos pelo mais absoluto respeito. Era a genialidade do andar francês". Caramba! E era só um cumprimento!
José de Alencar morreria de inveja da preciosidade da descrição.

Lendo o livro da festejada historiadora percebe-se com facilidade que a condessa de Barral era uma mulher inteligente, pragmática, esperta e, por certo, interessante; coisas típicas de uma parisiense pós-revolução. Mas também era intrigante, autoritária, carola e piegas; coisas típicas de uma brasileira do segundo reinado. Quer dizer, estava longe de ser uma mulher extraordinária. Mas a autora não tem dúvidas nem nenhuma preocupação com efeitos colaterais. Segue reto no empenho em demonstrar os talentos exuberantes da condessa. Abusa dos adjetivos e eufemismos ao longo do livro. Ao fato da condessa ser capaz de sustentar uma conversação bilingue num jantar nas Tulherias a autora chama de "encantar a quem se assentasse ao seu lado, em inglês ou francês".” Por ter conseguido se inserir sem traumas no cotidiano de Paris, do recôncavo baiano e do Rio de Janeiro, a condessa seria uma "camaleoa". Em 1837 houve distúrbios na Bahia e a condessa estava lá; em 1848 Luiz Felipe foi destronado e a condessa estava em Paris. Essa proximidade foi bastante para Del Priori entender que Luiza "enfrentou revoltas as mais variadas". No fato de Luiza ter se recusado a casar de acordo com a vontade do pai e ter preferido escolher o próprio marido (aliás amigo do pai) a historiadora viu uma "atitude revolucionária". Para a autora, afinal, a condessa de Barral, mesmo não se esforçando, teria feito parte do grupo das mulheres maravilhosas da Paris do século XIX. Aquelas que "investiam nos prazeres da vida social, trocavam o amor pela coquetterie" e tinham seu próprio salão, freqüentado por nobres ilustres e artistas da moda. Pobre d. Pedro II, não poderia mesmo resistir a isso tendo que tolerar uma esposa que, no dizer da autora, "fisicamente era um desastre". E, claro, com tendência a piorar com o passar dos anos. Compreensível, portanto, que o imperador nutrisse paixão pela condessa até a morte dela, aos setenta e cinco anos, velha mas ainda devidamente irresistível. Afinal ela tinha nascido "com uma proporção de peças dignas do melhor marceneiro: bacia grande, ancas vigorosas, ventre mais largo, joelhos ligeiramente virados para dentro, pés diminutos, mãos pequenas, doces, brancas e modeladas e... olhos de veludo".

Tocada por tanto entusiasmo a autora também não fez questão de prestar atenção no que não lhe convinha. Por exemplo, o fracasso da condessa de Barral como dama de companhia da princesa Francisca de Bragança na corte de Luiz Felipe em Paris. A princesinha brasileira, nora do rei da França, apesar de muito querida, era conhecida por suas inúmeras gafes. Mas o papel da condessa não era exatamente adaptar a princesa aos costumes franceses?
A autora também passa ao largo das intrigas que a condessa fazia no seio da própria família imperial. Afinal, não deixa de ser exatamente isso o que está revelado em uma carta escrita pela imperatriz Tereza Cristina reproduzida no livro: "(...) disse ainda (Barral) que minha filha Leopoldina repetia a ela tudo o que eu como mãe lhe dizia. A condessa disse que aproveitava para externar (à filha) o juízo que fazia sobre mim, e disse que eu era muito falsa. (...) É bem triste para um coração materno saber que não pode ter confiança numa filha".”

Simples queixa da imperatriz preterida ou será que a condessa de Barral, afinal, não era tão maravilhosa assim? Mary Del Priori não sabe a resposta.

Condessa de Barral - A paixão do imperador
Mary Del Priori
Rio de Janeiro: Objetiva, 2008


EÇA E MACHADO

Comparações entre as obras de Machado de Assis e Eça de Queiroz sempre foram inevitáveis. Em princípio esse exercício não tem muito sentido, pois cada um é qual e reina dentro do seu próprio contexto. Mas impossível ler a biografia de Machado de Assis escrita por Hélio Viana filho sem cotejá-la com passagens da biografia de Eça de Queiroz da autoria de Vianna Moog, e vice-versa. Irresistível observar que ele tiveram vidas diametralmente opostas. Também tinham personalidades muito diferentes. Machado era aquela figurinha miúda e gentil, simpática e amável, metida em seus ternos escuros e surrados, levando uma vida absolutamente rotineira.
Eça era aquela figura alta e esguia, afetada e arrogante, reinando no meio de seu grande mundo europeu, desfilando suas calças inglesas riscadas, suas meias de bolinhas e seu monóculo incrustado no olho direito. Com certeza, eram pessoas diferentes em seus mundos diferentes. Machado, autodidata, um dedicado barnabé, cumpridor assíduo da sua obrigação burocrática nas repartições da capital federal. Em toda a sua vida conheceu apenas o Rio de Janeiro e Petrópolis. Eça, um bacharel coimbrão, diplomata adulado, conheceu meio mundo e vivia entre Paris e Lisboa. Machado tinha mãe portuguesa e Eça tinha pai brasileiro. Mas todas essas diferenças, claro, não devem ter grande importância, nem é possível rastreá-las nas obras dos dois grandes escritores. São meras curiosidades a satisfazer o prazer de quem gosta delas. Ou, ao contrário, estaria na simplicidade de Machado sua fixação pelo lado singelo das almas e estaria na afetação de Eça sua fixação na simbologia dos ambientes? Daí terem sido: Machado um delicado cirurgião dos conteúdos e Eça um meticuloso toreuta das formas? Nem Hélio Viana filho, nem Vianna Moog se propuseram a responder tais questões e, muito menos ainda, a fazer comparações de qualquer natureza. Eu é que as estou fazendo, talvez até por ter lido os livros de ambos, quase que simultaneamente. As biografias
produzidas por Hélio Viana filho e por Vianna Moog são corretas, agradáveis e ricas, estruturadas em cima dos próprios textos dos autores o que continua sendo , ainda hoje, a melhor forma de biografar um escritor. Machado segue sendo Machado e Eça segue sendo Eça, mais de um século depois de suas mortes.

A Vida de Machado de Assis
Hélio Viana Filho
São Paulo: Martins Editora, 1974

Eça de Queiroz e o Século XIX
Vianna Moog
Porto Alegre: Edições Livraria O Globo, 1938


FERNANDO PESSOA, GUIA TURÍSTICO

Recentemente os editores e os herdeiros de Nabokov resolveram trazer a lume um texto inédito do autor, encontrado entre seus manuscritos depois da sua morte. Trata-se do esboço de um romance em fase absolutamente embrionária. Há quem diga que o esboço é um feto disforme, sem pé e nem cabeça, de algo que parecia caminhar para ser uma obra de qualidade duvidosa. Não obstante resolveram publicá-la assim mesmo. A decisão é de motivação essencialmente comercial e perpetra um miserável desrespeito ao próprio Nabokov que, com certeza, jamais aprovaria a publicação do romance no estágio em que se encontrava e, quem sabe, até mesmo não quisesse publicá-lo depois de concluído.
Nada contra a salutar mania dos pesquisadores em vasculhar arquivos e baús em busca de inéditos dos autores consagrados. Mas, quanto a trazer as descobertas ao grande público, tenho algumas restrições. Sempre vejo essas iniciativas como uma cirurgia delicada que deve ser feita com muita competência e juízo. Muitos grandes autores só foram revelados ao mundo depois de suas mortes, mas, exageros kafkianos à parte, todo mundo tem direito de querer que muita coisa do que produziu permaneça para sempre na gaveta.
Difícil dizer o que o grande poeta Fernando Pessoa queria ou não queria ver publicado pois a maioria da sua obra só veio a público depois do seu prematuro falecimento, buscando no álcool, consolo para os seus desassossegos. Teria ele alguma restrição quanto à publicação do guia turístico de Lisboa que escreveu ali por volta de 1925? Os pesquisadores que tomaram a iniciativa de publicação do livreto acham que não. Argumentam que quando Pessoa o escreveu estava muito empenhado em resgatar Portugal do descaso Europeu e acreditava que, para isso,
nada melhor do que estimular o interesse turístico pela gloriosa Lisboa. O guia faria parte de um conjunto de textos que o poeta planejava enfeixar numa coletânea chamada “All about Portugal” que ficara inacabada. De qualquer forma, a peça não se inclui em sua obra propriamente literária. No mais é impossível deixar de lamentar que Fernando Pessoa tivesse perdido a oportunidade de nos brindar com um guia de visitação à Lisboa verdadeiramente poético, fermentado na sua veia inspirada e já plenamente feita à época em que o guia foi escrito. O seu “Lisboa: o que o turista deve ver” (tradução do original escrito em inglês) é absolutamente burocrático. Teria sido apenas um "guia “Michelin" ligeiramente melhorado se o autor não tivesse sido tão feliz na escolha das atrações de Lisboa que merecem verdadeiramente ser visitadas pelo turista, além das pertinentes minúcias históricas postas, para cada lugar visitado. Simples zelo didático, contudo. Justo esperar-se muito mais de Fernando Pessoa.
A descrição de lugares maravilhosos como a Sé de Lisboa, O Mosteiro dos Jerônimos, o Castelo de São Jorge ou simplesmente o Tejo, são absolutamente frias e sem-graça. De qualquer forma o guia parece indispensável a quem queira escolher com correção o que conhecer em Lisboa. Seria de fato apenas essa a intenção de Pessoa? Lisboa e nos merecíamos mais apreço e ele podia se tivesse querido.

Lisboa: o que o turista deve ver
Fernando Pessoa
São Paulo: Cia das Letras, 2008