Quintal dos Poetas
Oficina Literária

                                                                      editora independente
 

 

Comentários e Croniquetas

GÊNERO E SEXO

 

A palavra gênero tem muitos e variados significados que, no geral, expressam a utilidade do termo para identificar grupos que possuem características semelhantes que os distinguem entre si. Tais como, entre outros, distinguir os seres do gênero feminino dos seres do gênero masculino.  A aplicação prática mais corriqueira dessa diferenciação ocorria na gramática e tinha a função de normatizar a flexão do substantivo com o seu complemento. Até aí ninguém se preocupava muito com isso, até pela obviedade. Mas eis que as complexidades da modernidade trouxeram a questão para o campo comportamental e suas implicâncias ideológicas. O conceito foi então melhor focalizado e passou a implicar a ideia de que os gêneros masculino e feminino não são uma fatalidade biológica e, portanto, podem ser livremente adotados de acordo com o arbítrio das pessoas. Na prática isso significa simplemente que pessoas nascidas com sexo feminimo podem se comportar conforme os padrões usuais de comportamento das pessoas nascidas com o sexo masculino e vice-versa. Até aí tudo bem, mas há implicações importantes que não podem ser esquecidas. Começando pela necessidade de se evitar confundir, nesse contexto, os conceito de “gênero” e “sexo”. São coisas bastante diferentes. O gênero pode ser opcional na medida em que é uma manifestação essencialmente comportamental. Mas o sexo não. Ele é uma categoria biológica complexa e sistémica e não é opcional. Contrariando o que pensa a maioria, as pessoas não podem mudar de sexo por mais que se convençam que “nasceram no corpo errado”. Está claro que há um ramo progressista da medicina que domina tecnicas capazes de dotar as pessoas de um sexo com as características externas de outro sexo, através de enxertos ou exéreses, desbalanceamento hormonal e coisas do gênero. A rigor, todos esses recursos mudam a aparência mas não mudam o sexo. Quem não produzia esperma vai continuar não produzindo e quem não produzia óvulos cai continuar não produzindo e não egravidando. Pai vai continuar sendo pai e mãe vai continuar sendo mãe. Desculpem-me, mas as intervenções para “mudança de sexo” são verdadeiras gambiarras que não raramente produzem arrependimento e desajustes psiquícos.

 

Um terceiro ponto relaconado é a questão das práticas sexuais. E aqui a questão biologica e comportamental volta ao foco. Embora as formas de inseminação já tenham transcendido os limites do coito tradicional, a procriação só se dá através da fertrillização do óvulo pelo esperma. Portanto, amigos, casais homossexuais jamais poderão ter filhos. Claro que podem adotar uma bela criança pretinha ou de olhos azuis e serem excelentes pais. Também podem ter uma vida sexual bastante satisfatória. Nunca se esquecendo, porém, que mulheres não conseguem ter orgasmos como os homens nem vice versa. Mas há sempre variações que suprem essas particularidades, tornando a vida sexual dos homossexuais alegre e variada. Nada contra, cada um gosta do que gosta.

 

E aqui chego no quarto e último ponto relacionando com a discusão atual da questão de gênero. Refiro-me à politização e ideologização do debate sobre o tema. Nesse ponto confesso que não sou nem um pouquinho tolerante. E começo traçando uma linha divisória relativamente rígida entre o papel da família e da escola na formação dos jovens. Andam ensinando por aí, nas escolas públicas, à crianças imaturas que “soltar a franga” (desculpem mas, mesmo sem querer fazer piada, não resisti a não usar a expressão) desde cedo é coisa salutar e natural. Entendo que à escola compete transmitir conhecimentos para instrumentalizar o cidadão para a vida prática e a convivência cívica. Trocando em miúdos: ensinar portugues, matemática, história, ciências, filosofia, artes e coisas do gênero. A formação do caráter, da moral e dos valores compete única e exclusivamente à família. Até porque é a família que caberá apoiar e sustentar as escolhas felizes ou infelizes dos seus membros até o fim da vida, inclusive as opções de gênero e de preferências sexuais.

 

(Em, 16 de setembro de 2017)

 

 

 EU E AS MÁQUINAS

 

Comecei a mexer com computadores por volta de 1993. Quer dizer, há vinte e quatro anos passados. Naquela época não havia ainda o windows e os programas rodavam em plataforma Dos. Os monitores não tinham capacidade de gerar imagens e o que aparecia nas telas eram apenas letras e números verdes, meio borrados. Não havia pen-drives mas apenas uns disquetes flexíveis mal ajambrados que arranhavam com facilidade. Mas o essencial da utilidade popular do computador já havia sido criado, quero dizer os editores de texto e as planilhas. Nunca fiz qualquer curso para aprender a manusear computadores e sempre o fiz de forma intuitiva. Durante muitos anos achei que os computadores haviam facilitado muito a minha vida. Hoje penso nisso com mais comedimento. É que essas máquinas estão, cada vez mais, deixando de nos servir. Ao contrário e, com perdão do trocadilho, nos é que nos tornamos servidores. Observem o quanto somos hoje manipulados, quando sentamos à frente do maravilhoso teclado de um computador e tentamos comandá-lo, esperando que ele facilite a nossa vida. Há certos comandos que ele simplesmente se recusa a obedecer. E mais, assume o controle e inverte o jogo. O mundo digital criou uma linguagem própria e um código de conduta que, muitas vezes, descamba para o surreal. Essa condição é especialmente sentida por quem não nasceu na era digital como eu e sente todo o conflito da mudança. Quem nasceu não tem tanto problema, vai se deixando levar facilmente sem sentir nenhum desconforto pois para ele o mundo real e o virtual parecem mais ou menos iguais. Não vou dizer se isso é bom ou se é mau, mas a mim incomoda muita coisa inserida no lado cotidiano dessa fábula em que muita gente convive e acha perfeitamente normal.                                                                                                                      Os exemplos dos meus desconfortos abundam especialmente nos serviços de atendimento eletrônico. Reparem como nesses serviços, depois de dialogar um tempão com uma máquina, você acaba conseguindo dialogar com uma pessoa que... vai agir exatamente como se fosse um computador lendo um manual mal redigido. Tenho um caso recente e preciso relatá-lo. Entrei no site do INSS tentando me cadastrar para receber uma senha que me permitiria acessar certas informar reservadas sobre mim mesmo. Tive que responder a várias perguntas sobre coisas pessoais acontecidas há mais de dez anos. Fiquei indeciso sobre algumas delas, mas respondi assim mesmo. Acabei reprovado, provocando na máquina uma séria dúvida se eu seria eu mesmo. Mas ela teve a bondade de me orientar a ligar para determinado número para tentar resolver o problema. Liguei e depois de vencer várias etapas eletrônicas acabei caindo numa telefonista de verdade que me fez exatamente as mesmas perguntas que eu não tinha sabido responder à máquina. Claro que fui novamente reprovado. No final a solução que ela me deu foi que eu tentasse tudo outra vez dentro de alguns dias. Agradeci e disse que ia desistir da aventura e procurar um posto de atendimento para tentar solucionar o problema cara a cara. Mas esse é só um aspecto marginal do domínio que a linguagem eletrônica, advinda das peculiaridades da interação com os computadores, empurrou em nossas vidas pacatas. Pior é aquele lado que caracteriza nossa total submissão à máquina quando estamos interagindo com ela na santa paz do nosso lar.

Vejam como é comum o computar recusar certas configurações que você prefere e instalar aquelas que ele acha que são muito melhores para você. Sem esquecer as atualizações que em geral, pioram o despenho dos sistemas. Isso quando não provocam uma pane geral numa coisa que vinha funcionando muito bem Meu Tablet, por exemplo, está carregado de aplicativos que foram instalados sem minha permissão e que eu não consigo descartar. Já virou uma árvore de natal de tanto penduricalho que lhe foi imposto e que não servem para nada.  Ficou lento e eu praticamente deixei de usá-lo. Pode ser que essa  não seja uma solução amena pois quem deixar de se conectar hoje em dia, vai acabar sendo desligado da tomada global. Mas, é mais ou menos por aí que pretendo ir, tentando encontrar um ponto de equilíbrio antes que me torne um dependente digital submisso e desenganado.

 

(Em 05 de setembro de 2017)

 

EU SICO, TU SICAS

 

O advérbio SIC é uma abreviação da expressão latina sic erat scriptum. É usado desde a idade média, quando era prática consagrada abreviar as grafias das palavras ou expressões para facilitar o penoso trabalho dos copistas de manuscritos. Não é portanto uma sigla e sim uma simplificação linguística. Significa literalmente "assim estava escrito".  Nossos dicionários ensinam que o termo expressa algo como "é assim mesmo, por mais estranho que pareça". Um dicionário especializado em bibliografia ensina que o SIC é um advérbio latino que se usa em impressos e manuscritos para esclarecer que uma palavra ou frase que pode parecer incorreta está perfeitamente de acordo com o texto. A rigor, portanto, a expressão deve ser usada para indicar que uma palavra ou expressão foi retirada do original exatamente como está transcrita. É um alerta ao leitor de que se há eventuais erros ou bizarrias na citação o responsável é o autor citado e não quem está citando. Por conta do scriptum original, em princípio só se aplicaria em citações de textos escritos. Contudo, como vivemos numa época de muita liberalidade, alguns autores, já admitem o uso do SIC também na citação de declarações orais, como as provenientes de entrevistas ou discursos. Assim, enquanto o Aurélio Buarque de Holanda restringe a aplicação do advérbio somente ao texto, o Houaiss e o Caldas Aulete não o fazem, usando a palavra “citação” e deixando, portanto, aberta a possibilidade de que tais citações possam vir de uma fonte oral. Aqui há uma dificuldade de ordem lógica já que é um tanto problemático delimitar a autenticidade ipsis verbis de uma fonte oral.                                                                                                                                                            

 

 Alguns vão mais longe ainda no seu liberalismo admitindo o uso da expressão para indicar qualquer tipo de erro cometido em alguma declaração seja gramatical, de lógica, de veracidade; o que pode descambar para o exagero. A mim, definitivamente não agrada o uso do advérbio latino na citação de textos que contenham declarações ou significados dos quais simplesmente discordamos. É que aí o advérbio vira exclamação o que me parece uma redução meio simplória. Nesses casos é muito comum o uso da expressão com conotação irônica ou debochada e aqui me sinto mais incomodado ainda. Sim pois aflora um certo pedantismo e corre-se o risco de levar um SIC no pé, quer dizer, o ironizador acabar sendo ironizado pela sua simploriedade. Além disso, nessas situações, muitas vezes, o termo é aplicado sobre um texto idealizado pelo próprio ironizador o que se constitui, sem nenhuma dúvida, uma prática absolutamente ilegítima já que não se trata propriamente de uma citação. Esses casos abundam na imprensa e na internet, aliás, notórios redutos de textos mal produzidos.    Também há casos de usos que acabaram gerando distorções localizadas. Na área da saúde, por exemplo, é comum o uso do SIC para particularizar algo estranho que um paciente tenha dito. O mais curioso é a explicação de que esse SIC significa “conforme informação do cliente”.                                                                                                                                                  

 

Enfim ocorre com o uso da bela expressão latina sic erat scriptum o mesmo que corre com a língua em geral, ou seja, ela sofre um processo de deterioração no qual prevalece a popularização pragmática do uso em detrimento da beleza etimológica e a pureza da origem.  Nesse processo estabelece-se algumas opções. É na escolha dessas opções que os bons escritores se diferenciam dos meros produtores de textos ou, por outra, os analíticos diferem dos sintéticos. Mas como o mundo caminha inexoravelmente para a massificação e a simplificação, infelizmente os segundos vão acabar triunfando e os alhos vão acabar virando bugalhos. De qualquer forma, caldo de galinha e prudência gramatical nunca fazem mal a ninguém.

 

(Em dezessete de agosto de 2017)

 

HISTÓRIA SUCINTA DA PANQUELETE

 

Não sei se acontece com vocês, mas comigo é uma constante. Falo da necessidade de ir para a cozinha improvisar algo para comer quando se está com pressa ou com preguiça. No meu caso, normalmente não estou com pressa, mas estou quase sempre com preguiça. 

Às vezes minha disposição para cozinhar chega às raias da catalepsia autoinduzida. Mesmo assim, muitas vezes tenho que ir para a cozinha preparar o rango. Mas meu instinto de homo sapiens induzido pela lei do menor esforço tem me ajudado muito. Por exemplo, outro dia, num insight genial, inventei a panquelete. É o cruzamento bastardo da sofisticada panqueca com o pragmático omelete. Não sei se o prezado leitor já tentou fazer panqueca. É muito trabalhoso, a massa tem que descansar uns tempos, o manuseio da fritura é delicado e os requisitos de qualidade são rígidos: tem que ficar levemente dourado e enrolado com perfeição, sem extravasamento do recheio pelos lados. E ainda tem um incômodo pois, depois você ainda tem que fazer a coisa mais aborrecida na arte de cozinhar que é lavar o liquidificador. Já o omelete é bem mais fácil, não requer nenhum delicadeza. É só misturar, fritar e enrolar. Se der problema durante a produção você ainda tem opção de rebaixar o dito omelete à condição de mexido e aproveitá-lo assim mesmo. Considerando, contudo, que a panqueca e o omelete guardam um certo grau de parentesco, concluí que seria possível juntá-los com expectativas promissoras. Estabelecida essa premissa parti para a fase de experimentação. Confesso que acertei já da primeira vez. Eis o resultado: uma panquelete douradinha, enroladinha, saborosa e feita em menos de cinco minutos. Isso posto, sem mais delongas passo-vos a receita da panquelete de presunto e queijo.

Bata o ovo com grosseria numa xícara e reserve em local fácil de achar. Junte uma fatia de mozzarella e uma de presunto e reserve, ambos frescos naturalmente.  Em fogo baixo, esquente óleo numa frigideira pequena, rasa e de fundo reto ou numa panquequeira que nada mais é do que uma frigideira pequena, rasa e de fundo reto. O óleo deve ser mínimo, o suficiente apenas para untar o fundo da frigideira por igual. Quando estiver quente derrame o ovo batido, nem antes nem depois. Movimente a frigideira espalhando o ovo de forma a cobrir todo o fundo. Seja artista e faça a fritura ficar redondinha. Coloque as fatias de presunto e queijo sobrepostas sobre o ovo frito e desligue o fogo. Atenção para a ordem: o queijo por cima do presunto. Enrole o conjunto delicadamente usando uma espátula pequena e até os dedos limpos, se necessário. Não entenda mal: eu disse que se usar os dedos eles devem estar limpos. (Os argutos devem ter percebido que a parte mais genial do método é aquela de enrolar a massa do ovo frito com o presunto e o queijo em fatias inteiras superpostas. É como enrolar um canudo de papel, não há erro).

E... está pronto!

Parece uma maravilhosa panqueca mas é uma maravilhosa panquelete. Mesmo aspecto, sabor quase igual e muito mais fácil de fazer. Essa é de presunto e queijo. Sugiro que você tente outros recheios, de preferência fatiados para aproveitar o macete do canudo de papel.                                                                                                                                                                                                                                              Se você não se entusiasmou com o resultando, não achou a ideia genial ou acha que ela não é original, não se preocupe. Não busco glória, mas apenas uma forma de tornar a cozinha um local mais alegre e descontraído. Em assim sendo, se você também tiver criando alguma coisa nessa linha me mande a dica. Seremos dois simplórios trocando receitas caseiras práticas e preguiçosas.

 

(Em doze de agosto de 2017)

 

 

PARAÍSO TROPICAL

 

O Brasil é o paraíso dos criminosos e condenados? Sim. Sempre foi assim. Está na raiz da nossa história. O país nasceu brando para com essa gente. Tem tradição na doçura do trato com bandidos. Está arraigado na nossa cultura, na lei, na jurisprudência, na cabeça do juiz, do legislador, do padre, do jornalista, do eleitor.                                                                                                                                                           Tudo começou por volta do mês de maio do ano da graça de 1500. Nascia a terra de Santa Cruz e com ele o Nirvana dos sentenciados e, por extensão, dos criminosos em geral. O primeiro beneficiário chamava-se Afonso Ribeiro. Justamente um dos condenados trazidos por Pedro Álvares Cabral para cumprir pena de degredo nas novas terras ultramarinas que os lusos estavam certos de encontrar nos ermos do poente do atlântico oceano. Doce degredo que a   terra bralisis inaugurava com a naturalidade de tudo que lhe é peculiar. Ao se aproximar da terra recém descoberta o temeroso condenado nem acreditou no que viu. Praias e mulheres maravilhosas, frutas em abundância, vegetação luxuriante e animais exóticos. Literalmente um paraíso tropical. Se pensam que eu exagero, ouçamos o que disse o próprio Pero Vaz de Caminha, testemunha ocular daquela história.        

 

Disse ele a respeito da terra:

 

“De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito formosa”. 

 

E a respeito das nativas:

 

“E uma daquelas moças era (…) tão bem feita e tão redonda e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, envergonhariam por não as terem suas”.

 

Quer dizer, a pena do sortudo Afonso Ribeiro era literalmente viver no paraíso, livre, leve e solto. E da prole dele com as belas nativas começou o povoamento mestiço da terra. Não podia dar outra, a doçura para com os criminosos se tornou genética e paternal, fincada na gênese da nação. Mais de quinhentos anos depois o espírito da coisa continua firme. E haja embargos declaratórios e infringentes. Justificáveis, pois precisamos nos acautelar das sempre traiçoeiras injustiças pois, como ensina a aritmética piedosa da brasilidade: “é preferível noventa e nove culpados livres do que um inocente condenado”.                                                                                                           Mas a história continua e depois do degredado luso vem uma série infinita de outros agraciados com a brandura paradisíaca original que até tomou dimensões globais. Ladrões de trens ingleses, terroristas italianos, cá vieram dar pois a terra é chã e as nativas são formosas.        

E ainda tem a notória bondade natural dos nossos magistrados, o que também faz parte do caldo amargo da nossa piedosa tolerância. Em que outro recanto do mundo notórios malfeitores, já condenados, ganham tornozeleiras eletrônicas que os habilitam a cumprirem suas penas tomando sol nas piscinas das suas mansões? Não é difícil obter a graça. Quem não consegue o mimo por falta de fundamentação jurídica, basta alegar problema de saúde. Qualquer hipertensão serve.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Com certeza, não é por medo da mão pesada da justiça, que alguém tem motivos para não praticar crimes no Brasil.

 

(Em oito de agosto de 2017)

 

 

DIA DO ORGULHO SENIL

 

Os homossexuais já assumiram, os negros fazem questão de adotar modas que realcem as características da sua “raça” e culturas ancestrais, as feministas não perdem a menor chance de mostrarem que não são inferiores aos homens em nada. O dia do orgulho gay é um sucesso mundial, etc. Até os grupos neonazistas têm seus eventos e suas exibições paranoicas sem nenhum constrangimento. E os velhos? Quando será criado o “dia do orgulho senil”. Por enquanto não vislumbro a menor chance. E não haverá tão cedo. Pelo menos enquanto os velhos não assumirem a sua condição. Qual é o problema em ser velho, se todos seremos um dia? Não sei muito bem porque tendemos a negar ou esconder a velhice como se ela fosse uma doença ignominiosa e evitável. Mas é assim. Os velhos, em geral, não perdem a chance de mostrar que ainda não envelheceram e fazem isso normalmente demostrando que ainda são capazes de ter comportamento e habilidades de jovens. Normalmente, caem no ridículo. Sem falar nas plásticas malsucedidas e nas tinturas destoantes de cabelos, barbas e bigodes luminosos em seus frescos pretos azeviches.

 

Confesso que detesto propagadas de tônicos rejuvenescedores, ou de planos de aposentadoria privada que mostram velhos inverossímeis correndo de moto, carregando uma prancha de surfe debaixo do braço e coisas do tipo. E ainda tem os milagrosos estimulantes sexuais que nos habilitam a namoros melhores do que os que tivemos quando realmente éramos  jovens, belos e atléticos.

 

Minha mulher costuma dizer que nesse assunto de velhice assumida, eu ando na contramão e tento parecer mais velho do que realmente sou. Não sei se ela tem razão, ando meio detonado mas não reclamo tanto assim. Até tenho uma prova em contrário. É que voltei a ter alguns hábitos que tinham quando era adolescente: passo grande parte do dia lendo e ouvido música clássica como faziam ali por volta dos meus quinze anos. Alguns podem até dizer, com maldade, que eu nunca fui jovem. Nem tanto. Talvez eu apenas tenha um ritmo diferente que ameniza as etapas da idade.

 

Seja como for, sinto que ainda não arrefeceu minha veia de ativista político, pulsante na década de 1970. É que eu estive pensando em criar a uma associação destinada e valorizar a velhice como ela é, com suas vantagens e desvantagens sem eufemismos e fantasias. O ponto culminante do movimento, claro, seria a criação do “Dia do Orgulho Senil”. Certamente eu seria o presidente da entidade. Mas aí surge uma dúvida quanto ao meu engajamento . É que que eu detesto velório e como presidente de uma associação desse tipo, provavelmente, toda semana eu teria que ir a um, prestando a última homenagem a um bravo militante que se foi.

 

(Em três de agosto de 2017)

 

SEIS x MEIA DÚZIA

 

Sempre concordei com o singelo entendimento de que a constituição de um país é o seu principal patrimônio político. Até porque, constituições de conteúdo autoritarista são mero eufemismo, pois o sentido intrínseco de uma constituição é exatamente conter as imposições autoritárias, garantir o equilíbrio dos poderes e a soberania dos direitos fundamentais. É, enfim, a âncora que garante a segurança da nação quando os mares da política se encontram tormentosos. O Brasil, atravessa hoje uma das piores crises políticas da sua história. Não obstante, ninguém se lembra da utilidade da nossa Constituição como recurso para acalmar os afoitos e conter as soluções esdrúxulas que pipocam o tempo todo. Ao contrário, todo mundo quer mexer na constituição, cortar aqui e emendar acolá, criando um Franknstein para acomodar casuísmos. É óbvio que a nossa constituição não é boa. Mas só tende a ficar pior com as colas e remendos oportunistas. Aliás, oportuno observar que a melhor forma de resolver nossos cruciais problemas no campo trabalhista,  judiciário, previdenciário, do sistema tributário e do sistema político seria uma reforma constitucional ampla, integrada e consistente. Mas isso só seria produtivo se fosse feito através de uma Assembleia Nacional Constituinte formado por representantes da sociedade civil e não por políticos profissionais. Boa e antiga solução, tantas vezes usada com sucesso ao longo da história. Mas, o que todos querem à unanimidade, é exatamente o contrário, ou seja, remendar a constituição atual para acomodar casuísmo de políticos, autoridades e partidos.

 

Isso posto abro caminho para criticar frontalmente todas as propostas de reforma constitucional que andam por aí. São invariavelmente pontuais, descontextualizadas, e, geralmente, inviáveis. Entre elas, na minha opinião, se destaca a ideia de antecipação das eleições para a presidência da república. Está embutida numa lógica e numa logística política complexa e de altíssimo risco que passaria pela cassação de Temer e depois por uma reforma constitucional. Ambas medidas dependem de apoio de dois terços do congresso. No mínimo é um processo demorado que pode nem ser concluindo até a época do início das campanhas eleitorais da eleição presidencial do ano que vem. Além do mais, há o risco de só uma parte do plano dar certo, cassando o Temer o pondo o Rodrigo Maia no lugar, o que representaria a mais burra transação da história da troca do seis por meia dúzia. Até porque, politicamente, eu até acho que o velho corrupto Temer vale mais do que o novo corrupto Rodrigo Maia. Temer é muito mais hábil e experiente e, bem ou mal, está conseguindo tocar algumas reformas importantes e conseguindo se manter no poder apesar de estar em curso uma afoita conspiração para derrubá-lo. Ruim com ele, talvez pior sem ele. Claro que nada terei a me opor se ele for cassado pelo congresso e acabar na cadeia, mas temo pelo que virá na sequência da perda do mandato.

 

(Em primeiro de agosto de 2017)